A força da parceria
Nei Charão
Adaptada por Rafael Barcellos, a versão de Dom Quixote
apresentada pelo grupo Loucos de Palco (Santa Rosa) já na chegada nos remete a
um universo fantasioso através da sua proposta cenográfica: estamos frente à
infinitude do quadrado delimitado pela serragem, com um toco de madeira e um
arbusto em um dos cantos, nos posicionando no universo quixotesco.
Jadson Silva, que dirige e interpreta o personagem-título, exibe
sua maturidade como ator ao reunir ótima técnica corporal e vocal, sobrando
encantamento na simbiose tragicômica e na combinação de registros populares e
eruditos na linguagem característica de Quixote.
Já Anderson Farias constrói seu Sancho Pança a partir de uma
estética bem definida, de raiz extremamente popular e ao mesmo tempo ambiciosa,
ávido e determinado pela busca de poder. A construção da personagem combina equilíbrio
e leveza, avalizando junto ao público infantil as duas principais
características de Sancho: amizade e lealdade ao cavaleiro que é seu amo.
O espetáculo está montado, evidentemente, para atores que já
se conhecem muito bem (há pouco assisti a ambos em Dois Perdidos Numa Noite
Suja, de Plínio Marcos, no Festival de Erechim). Esse entrosamento com certeza
contribui para o excelente resultado do jogo da cena. A direção de Jadson está
correta ao não buscar histrionismo em seu Dom Quixote, alçando Sancho a um
confortável espaço na cena.
Em sua versão para Dom Quixote de la Mancha, o grupo teatral
Loucos de Palco consegue garantir características obrigatórias em sua
encenação, como a sátira, a farsa e o humor.
Afinal, ousar adaptar a obra de Miguel Cervantes, um dos textos
literários mais traduzidos no mundo, que mereceu de Dostoievski o elogio de que
“nada existe de mais profundo e poderoso no mundo inteiro do que essa peça de
ficção”, é prova de profunda coragem destes teatreiros.
Crédito da foto: Giuliano Bueno
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