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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Dançando com o Tempo

Débora Rodrigues


  A Cia de Palhaços Clowncando de Santa Maria, apresentou na Sala Carlos Carvalho da CCMQ o espetáculo Entre Três, premiado no 2º Cena Livre (Festival Internacional de Teatro de Uruguaiana) com melhor cenário para Leandro Rodrigues e Leonardo Rodrigues, melhor atriz coadjuvante para Hellen Höhrer e melhor espetáculo adulto pelo júri popular. A montagem é inspirada em texto do escritor curitibano Braz Pinto Junior, autor de O clown claudicante e o esfíncter da esfinge, entre outros.

Entre Três se passa num restaurante simples onde estão o garçom (Helen Höhrer) e o cliente (Otávio Arns), este, um homem vestido elegantemente, esbanjando charme, que está sentado em uma das mesas realizando, ou tentando realizar, seu trabalho de corretor de seguros. Inicialmente os dois personagens estabelecem uma relação cômica utilizando objetos como copo, isqueiro, cardápio, num jogo corporal com habilidade e destreza. Então a terceira personagem (Renata Demarco) entra em cena. Ela surge elegante em traje de festa e se insinua para o cliente corretor, desencadeando os conflitos da peça. A encenação está assentada numa dramaturgia não estruturada convencionalmente e que parece servir apenas de pretexto para a ação dos atores, que ganham evidência. A personagem interpretada por Renata Demarco estabelece um clima de sensualidade com o corretor que se repete várias vezes durante o espetáculo. O clima romântico sempre é interrompido, mas provoca várias pequenas ações que mantém a cena viva e consomem o tempo, que se constitui num dos motes do espetáculo. A utilidade ou inutilidade do tempo são aferidas constantemente com a evocação da ampulheta que é mostrada constantemente como um ícone. A cada marca estabelecida na ampulheta, o cliente satiriza uma performance de dança, como se estivesse em outro tempo e lugar, dando destaque para as habilidades em danças de Otávio Arns.

O decorrer do espetáculo dá espaço para as relações entre o trio de personagens, dando indícios de cumplicidade entre a cliente e o garçom, revelada ao final, assim como o personagem do garçom, que é interpretado por Hellen Höhrer, convincente na sua interpretação, disfarçando com certa graciosidade quando o bigode artificial começa a descolar do rosto devido ao suor. O elenco é harmônico e aplicado, embora perca algumas vezes o controle na intensidade da ação. O cenário é composto por um balcão e por duas mesas com cadeiras, alguns adereços cênicos em fibra em tons avermelhados e lustres também vermelhos compõem o ambiente. Dos adereços cênicos, dois modelos de ampulhetas são utilizadas para marcar o tempo, que dá a impressão de não passar.

Com uma trilha sonora eclética, que perpassa o jazz, o tango e rock, a encenação por alguns momentos da peça parece não evoluir dramaticamente, mas guarda uma surpresa para o final.

Crédito da foto: Giuliano Bueno

domingo, 9 de dezembro de 2018


Um Büchner brejeiro

Débora Rodrigues
 

Na plateia do Teatro Bruno Kiefer para assistir a Leonce e Lena, do grupo Coadjuvantes, de Charqueadas, sem nenhuma expectativa prévia, fui surpreendida com a chegada dos atores cantando alegremente pelas escadarias do Teatro num cortejo que dá início ao espetáculo.

Com texto de Georg Büchner (1813-1837), a peça é uma sátira sobre o amor, com metáforas filosóficas sobre a vida e o ócio, em forma de poesia não declamada muito bem pronunciada pelo conjunto de atores, que estreou o espetáculo há apenas 3 meses. O grupo, que também é recente, formado em 2017, com o intuito de fomentar a arte e a cultura numa cidade que não tem um teatro nem espaços culturais, como eles mesmos enfatizam, criou um espetáculo para a rua, com uma ambientação que remete à Commedia Dell’Arte.

Com bastante desenvoltura e simplicidade na execução dos instrumentos musicais, como violão, gaitinha, cavaquinho e triângulo, além da cornetinha usada diversas vezes para acentuar a comicidade, o espetáculo tem várias inserções musicais contagiantes e por vezes melancólicas, com canções populares infantis como Se essa Rua fosse minha e Alecrim Dourado, agradando as poucas crianças presentes na plateia composta majoritariamente por adultos, podendo este espetáculo ser destinado a todos os públicos.

A área cênica é demarcada por  uma espécie de cercado feito de cano de PVC com enfeites de flores em cada mastro e uma corda para fechar o cercado, um tapete de lona e ribaltas feitas de latas com cuidado nos detalhes. O cenário é também muito simples, mas bem executado: duas cadeiras moduláveis confeccionadas para ter múltiplas funções - ora vira escada, ora um banco de praça, ora carroça -, uma tapadeira ao fundo e bonecos azuis suspensos nas cordas do cercado que, ao meu ver, foram mal aproveitados, sendo perfeitamente dispensáveis. Destaca-se o figurino impecável dos atores, em coloridas composições com detalhes no acabamento combinando com os sapatos e os acessórios cuidadosamente elaborados.

Surpreende o fato de o grupo ser incipiente, devido à harmonia dos atores e à qualidade do trabalho desenvolvido em pouco tempo de trajetória. O que comprova que força de vontade, empenho do grupo e dedicação, características inerentes ao artista, podem gerar grandes resultados.

Crédito da foto: Giuliano Bueno

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Norma densa

Débora Rodrigues 


O espetáculo Norma conta a história de uma atriz que já foi ícone do cinema mudo e hoje está esquecida do público. A proposta de encenação é adequada em suas referências ao cinema mudo, incluindo cenário em preto e branco e uma movimentação marcada por gestos cuidadosamente trabalhados e expressões enfaticamente marcadas.

A opção pelo estilo um tanto denso de narrativa é apropriada e atinge o objetivo da proposta da direção, porém, às vezes, torna-se enfadonha. O cenário e os adereços cênicos geometricamente desenhados, assim como a maquiagem dos atores que enfatiza as linhas também geométricas e aprofunda as intenções dos personagens, o deslocamento dos atores com marcações detalhadas e a movimentação cuidadosamente desenhada contribuem para o êxito da proposta. Além da trilha sonora, que assume o papel de sublinhar do início ao fim os momentos da peça, acompanhando a dramaticidade da cena e dando ênfase aos momentos de clímax da encenação.

Os atores desempenham dignamente seus papéis na peça, que é inspirada no filme Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder. Destaque para o ator Thalles Echeverry, que cumpre empaticamente seu papel de fiel camareiro. Trata-se, vale salientar, de um jovem talento, visto que escreveu a dramaturgia e codirige o espetáculo, juntamente com Eduarda Bento. A atriz Isabelle Vignol é fiel à sua personagem Norma, embora a referência à atriz Gloria Swanson, que estrela Crepúsculo dos Deuses, seja evidente e em alguns momentos a sua movimentação milimetricamente marcada não permita espaço para um sentimento mais espontâneo, senão o que está nas marcações. Se esta foi a intenção do diretor, ótimo, porém, num raro momento em que foge ao estilo característico da sua interpretação em toda a peça, a atriz mostra um pouco de outra faceta, levemente cômica, quando interpreta Medéia e insinua-se para Jasão, deixando o espectador com vontade de conhecer um pouco mais da atriz. Talvez ela pudesse experimentar suavizar as intenções em alguns momentos, dando, assim, uma característica mais humana à personagem.

O tema da peça demonstra a fragilidade do ser humano de uma forma exacerbada, apresentando uma personagem frustrada com seu momento na carreira de atriz, que vive numa outra realidade. A conclusão de Norma não foge ao esperado, reservando forte carga dramática para a cena final. Mas o espetáculo cumpre sua proposta de encenação. Sem dúvida, uma peça elaborada com cuidado em que se denota o trabalho da Cia de Teatro Você Sabe Quem e que certamente tem um longo percurso a trilhar.

Crédito da foto: Giuliano Bueno