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terça-feira, 10 de dezembro de 2019


Entre a Guilhotina e o Cuitelinho

Camilo de Lélis 

 
O Grupo de Teatro Coadjuvantes (Charqueadas) está a meio caminho de completar a sua trilogia sobre a obra do dramaturgo alemão Georg Büchner. A companhia trouxe ao FESTE, no ano passado, Leonce e Lena, agora vem com A Morte de Danton, prometendo para breve Woyzeck, a famosa peça que Büchner deixou inconclusa, ao morrer com 23 anos, em 1837.

A tragédia de Büchner aponta para a Revolução Francesa, que marcou o início da era contemporânea, na qual a classe vencedora, no fim das contas, foi a burguesia, com os girondinos tomando o poder, depois de uma fase inicial de perseguições sanguinolentas na ditadura dos jacobinos, encabeçada por Robespierre, dito o incorruptível. Robespierre temia Danton e precisava eliminá-lo, na ilusão de que com este morreria a oposição à sua conduta moralista e paranoica. Robespierre acusava meio mundo de ser inimigo da revolução. Nos anos chamados “período do Terror” – 1793/1795 – caíram cerca de vinte mil cabeças, desde os reis de França Luis XVI e Maria Antonieta, até os próprios revolucionários de primeira hora. A Revolução comeu seus próprios filhos, como se dizia. Georg Büchner, também um revolucionário em seu tempo e país (1813 – 1837), percebeu o quanto de crueldade havia nesses movimentos convulsivos de radical transformação social. E Danton foi o personagem escolhido por Büchner para representar o desalento que tomou conta dos jovens que tinham ideias mais tolerantes e abrangentes em relação à nova sociedade. Sociedade que se esperava surgisse com o fim do absolutismo vigente na Europa àquela época. A tragédia descreve a derrocada dos ideais e o inevitável fracasso humano nos momentos que antecederam a morte de Danton e de seu amigo Desmoulins na guilhotina.

O coletivo Coadjuvantes, dirigido por Eduardo Arruda, não obteve sucesso em mostrar os conflitos entre as tendências políticas em jogo, sem definir com clareza os agentes revolucionários. Os discursos éticos das personagens estão abafados por uma coleção de efeitos estéticos, tanto nas marcações artificializadas, que afastam um necessário realismo com que o drama obteria credibilidade e verossimilhança, quanto na maneira monocórdia que algumas falas importantes são ditas. O exemplo mais contundente é o da narradora da abertura, em perna-de-pau, Nina Alves. O diretor teria muito a ganhar se corrigisse a oratória dessa ótima atriz e cantora. O texto dela, que é de grande importância para introduzir o público no drama, está balançando como se também a fala se equilibrasse nas pernas-de-pau. O corpo da voz precisa ser dominado e a oratória estar a serviço da clareza e do convencimento, quem fala deve ter total consciência do que diz, para quem diz e qual o seu intento com o discurso. Devemos aprender com Danton a falar para as massas com paixão. E com Bertolt Brecht, no texto em questão, a chamar o espectador à consciência de como ocorrem as injustiças.

Percebe-se logo na entrada pela presença dos atores pela plateia, tocando seus instrumentos e cantando, que o coletivo Os Coadjuvantes se mantém fiel a uma escolha conceitual e formal para seu estilo de representar. Não há como não ver, na caracterização do grupo, uma influência na moda que o encenador mineiro Gabriel Villela lançou no Brasil na década de 90, com sua antológica montagem de Romeu e Julieta. Parece que essa foi a escolha de Os Coadjuvantes para colocar a trilogia de Büchner dentro de uma unidade estética referente ao folclore brasileiro. O figurino, a maquiagem e as máscaras remetem à carnavalização peculiar que alguns grupos têm elegido para criar identidade. Carnavalização é o termo mais apropriado para definir a miscelânea de referências exóticas que foram sobrepostas à história do período mais sombrio da revolução francesa – no caso, a morte de Danton. As vestimentas misturam orixás africanos com roupas medievais. A maquiagem desenha clowns com traços cubistas, não faltando o clássico nariz vermelho de palhaço.

As caracterizações não são claras, à exceção das personagens mais ridicularizadas. A rainha Maria Antonieta, com sua peruca de bolo, manipulando um boneco de luva, que é o rei Luis XVI, torna-se um dos melhores achados da encenação. O que ocorre é que o grupo se utiliza de uma forma de representação estilizada com a expectativa de que o público conheça seus códigos e os interprete automaticamente. Mas isso não se dá. Tudo fica muito parecido. As marcações cênicas buscam originalidade, com imagens quase barrocas, quase circenses, quase absurdas, gerando uma confusão de possibilidades de leituras, o que não permite ao espectador acessar realmente o drama proposto pelo dramaturgo. Na comédia Leonce e Lena, que assisti no ano passado, a performance do grupo, utilizando esses mesmos elementos, foi bem mais feliz. É de se refletir sobre a diferença de gênero que há entre uma comédia e uma tragédia. Em A Morte de Danton, o andamento rítmico do espetáculo se mantém linear desde o começo até o fim, com poucas erupções, geralmente vindas das cantorias que o elenco traz, à maneira de quebras e saltos dramáticos, sendo esse, para mim, o ponto forte do grupo – saber tocar e cantar muito bem. Por certo o desempenho cresceria se os atores falassem com a mesma clareza e potência com que cantam as belas canções escolhidas para a peça.

Talvez a atmosfera trágica de A Morte de Danton tenha contaminado o andamento do espetáculo, puxando o efeito para o missal, a ladainha e a melopeia. Embora com alguns efeitos cômicos, no geral a obra terminou por se mostrar um espetáculo poético em que a poesia não se realiza.
Reitero o que escrevi sobre a excelente comédia Leonce e Lena, na qual eu já percebia que o estilo adotado pelo grupo, em vez de liberar a criatividade, está constrangendo o seu desempenho, está amarrando a estética a imagens desgastadas. A companhia precisa achar a sua marca própria, pesquisando suas características de origem, a história da região em que se hospeda e produz, buscar formação e erudição na área teatral. E, principalmente, libertar-se do Gabriel Villela. Potencial não lhes falta.

Crédito da foto: Giuliano Bueno

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018


Büchner Alegórico e Utópico

Pedro Delgado

 
 
O grupo Coadjuvantes, da cidade de Charqueadas, apresentou na noite de 8 de dezembro, no palco do Teatro Bruno Kiefer, a peça Leonce e Lena, de Georg Büchner. A apresentação do espetáculo integra a programação do 3º Festival Estadual de Teatro do Rio Grande do Sul. 

Numa releitura da obra do dramaturgo alemão, o encenador Eduardo Arruda se utiliza de referências da cultura popular brasileira para formular a récita de um espetáculo sensível, alegórico e fantasioso, contando uma história de amor em que dois jovens guiados pelo destino se apaixonam sem sequer revelarem suas identidades.

A obra de Arruda apresenta elementos que lembram estéticas teatrais e soluções cênicas utilizadas nas encenações dos grupos Ói Nóis Aqui Traveiz, de Porto Alegre, e Galpão, da cidade de Belo Horizonte. Ambos fazem parte da formação do diretor. Desde o início da peça, quando o elenco entra pelo meio da plateia, tocando instrumentos musicais e cantando, fica claro que a encenação está fortemente embasada nas estéticas desses dois referenciais.

A teatralidade apresentada pelo elenco do Coadjuvante, apesar de a peça ser divulgada como um conto de fadas, tem a pretensão de agradar a todas as faixas etárias e atinge seu objetivo. Conforme experiência que vivenciei ao assistir à peça em meio a uma plateia diversificada, inclusive com a presença de algumas crianças apesar de ser apresentada às 21h, pude observar a vibração da mesma com os jogos das cenas que por vezes eram interrompidas por aplausos.

Leonce e Lena é uma releitura do clássico Romeu e Julieta, de William Shakespeare, que na montagem do grupo charqueadense ganhou uma roupagem bem brasileira. A influência da cultura popular nordestina, do Carnaval e do teatro de rua está presente em todas as imagens concebidas para as poéticas das cenas. Aqui quero chamar a atenção para um detalhe: talvez porque o diretor seja fortemente inspirado pelas estéticas do teatro de rua, fica evidente a despreocupação com os recursos que as novas tecnologias de iluminação oferecem para a ampliação poética das imagens, assim como para reforçar a dramaturgia e as mudança de cena. Sugiro que o grupo avalie a potência que a luz pode proporcionar para ampliar o tom romântico da história de amor entre os protagonistas e a poesia das imagens construídas.  

Contudo, o espetáculo é bem pensado, e os figurinos coloridos e bem-acabados contribuem para reforçar o aspecto poético e romântico proposto pela direção, ainda que os corpos que os vestem careçam de técnicas que ajudem a potencializar as possibilidades imagéticas e dramáticas que os mesmos oferecem. A fragilidade da interpretação do elenco enfraquece também a dramaturgia dos personagens, com isso os figurinos correm o risco de parecerem muito mais uma decoração dos corpos que um signo a ser explorado. Pablo Bertol, por exemplo, constrói um Leonce que está mais presente no figurino que na interpretação. Seu texto está bem decorado, no entanto é dito de forma previsível e superficial.  Seu corpo não vibra e não segura o jogo exigido pelos encontros dramáticos das cenas em que aparece. Dessa forma, o Leonce que vemos em cena é frágil e quase opaco, não fosse pelo colorido do figurino que reforça sua presença. Nina Alves, por sua vez, apresenta uma Lena um pouco mais vibrante, que se torna mais interessante quando sua interpretação escapa à fórmula alegórica e farsesca de dizer um texto. Yannikson e Rita Almeida destacam-se dos demais pela dinâmica e humor que impõem a seus personagens. Marina Cabral de Almeida constrói uma bela figura para a sua escrivã real. Eduardo Arruda e seu rei ficam mais na forma simbólica do poder que na interpretação. Acredito que essa fragilidade fique mais evidente em razão do tom filosófico demais do próprio texto e sua linguagem de difícil entendimento dramatúrgico tanto para quem o representa quanto para quem o assiste.

Diante disso, quero chamar a atenção para o que, na minha opinião é o ponto vulnerável da direção de Arruda: trata-se de como ele insere os elementos simbólicos nas cenas. Os elementos desfilam pelo palco na maioria das vezes sem nenhum aprofundamento, tornando-se muitas vezes desnecessários para o desenvolvimento e a continuidade da dramaturgia a que se propõem. É como se o diretor quisesse dizer: “Olha o que eu sei fazer e não olha o que a cena me pede para fazer”. Os símbolos entram e saem de cena de maneira superficial, e há momentos em que a gente se pergunta: “Oquei, e agora qual será o próximo?”. Esse entra-e-sai de informações e símbolos estéticos não é desenvolvido. Com isso, enfraquece-se o jogo dramático bem como a poesia que poderia resultar a partir de uma imagem melhor explorada. Às vezes tem-se a sensação de que não existe um aprofundamento na proposta da encenação, tornando a peça frágil e periférica.

Cabe registrar que o espetáculo é bonito e tem momentos muito bem executados, principalmente quando o elenco canta ao vivo. Musicalmente existe afinação nas vozes e um arranjo instrumental de excelentes escolha e execução. A maquilagem também merece destaque. Uma máscara branca reconstrói uma imagem farsesca nos rostos dos intérpretes sem prejudicar a expressividade facial, apesar da economia de expressões por parte de alguns atores. A cenografia também merece destaque enquanto significado que pode se reciclar facilmente. Trata-se de uma estrutura da madeira criada para facilitar na concepção das imagens. A ideia é louvável e chega a ser bem aproveitada em vários momentos. No entanto, poderia propiciar melhor utilização se não fosse por sua estrutura débil. A direção propõe a construção de algumas imagens que poderiam contribuir bastante para a estética da peça, entretanto os atores não se sentem seguros ao subir na estrutura, e seus corpos travam a fruição do movimento, impedindo que algo potente se conclua em sua totalidade.

Mesmo assim, a peça é boa de ver e muitas vezes provoca sensações de prazer que vão além da fragilidade já descrita. Parabéns ao grupo Coadjuvante e vida longa a Leonce e Lena. Sei que é o início de um namoro, e que eles têm muito tempo pela frente para se apaixonarem e viverem um grande amor.

Crédito da foto: Giuliano Bueno