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terça-feira, 10 de dezembro de 2019


Nosso Estado de Sítio propõe reflexão acerca das questões contemporâneas

Cristiano Goldschmidt

 
Na noite do último sábado, 7 de dezembro, penúltimo dia do 4º Festival Estadual de Teatro do Rio Grande do Sul (FESTE), o Teatro Bruno Kiefer recebeu a montagem de Nosso Estado de Sítio, que leva a assinatura de Marcelo Ádams na direção e no roteiro final. O espetáculo foi criado no Curso de Teatro – Licenciatura da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), a partir do texto Estado de Sítio, do dramaturgo argelino Albert Camus. Segundo o grupo União de Artistas da Uergs (UAU), a partir desse mote, foi desenvolvida uma dramaturgia que buscou atualizar algumas questões candentes no Brasil do século XXI

A montagem do Grupo UAU, de Montenegro, se propôs a levar ao palco dois eventos consecutivos: a aproximação de um cometa, que ameaça de extinção a humanidade, e a chegada da Peste, causada pela passagem do gigantesco corpo celeste. Assim, o medo e o obscurantismo, associados a um pretenso fim do mundo, fazem com que instituições tradicionais e conservadoras reafirmem posições que ameaçam a liberdade, a individualidade e a diversidade. A mensagem passada pelo grupo é a de que a chegada da Peste metaforiza os vários inimigos dos direitos humanos, aproximando a poética teatral do atual estado político convulsionado em diversos países, inclusive no Brasil.

O cenário é composto por poucos elementos, assim como são poucos os adereços, alguns deles usados nas cenas iniciais, como as caixas plásticas de supermercado para armazenar hortifrúti, sacolas plásticas e algumas laranjas que possibilitam um bonito jogo de cena − para e entre os atores. A iluminação, de Bruna Johann, desempenha um papel importante, dando sentido à ausência de um cenário mais elaborado. É a iluminação que causa o efeito necessário à composição cênica e aos deslocamentos dos atores, contribuindo para que se crie uma atmosfera necessária aos desdobramentos do espetáculo, pautado, segundo Marcelo Ádams, pelo princípio da coralidade e pelo investimento na pesquisa da fisicalidade atorial, que não se propõe a reproduzir ações realistas.

A direção de Marcelo Ádams acerta desde o início ao colocar os nove atores e atrizes aguardando o público espalhados pelo teatro, no palco e nas laterais da plateia. O impacto visual inicial é seguido pelo impacto da dramaturgia assim que o espetáculo começa. O figurino, mais um acerto do grupo, se resume aos macacões azuis característicos da classe operária, e fazem referência à criação do encenador russo Vsévolod Meyerhold, transformando atores e atrizes em operários da arte. A estética do figurino acaba por conferir certa leveza à montagem, minimizando um pouco o sentimento de agonia causado pelo texto, que deixa o espectador em certo estado de aflição. Aflição que é potencializada pela trilha sonora, executada ao vivo, e que pontua os acontecimentos. Rodrigo Waschburger, além de bom ator, é o responsável por puxar a trilha sonora com solos de guitarra.

Marcelo Ádams é um ator e diretor experiente. Homem de teatro, com longa trajetória nos palcos gaúchos, sua atividade docente na universidade também aparece de alguma forma em cena. Seus textos e montagens, de autoria própria ou adaptações, apontam para um diretor e dramaturgo atento ao conjunto do que é levado ao palco em suas produções. Demonstra preocupação social, reafirmando sua vocação para um teatro com acentuado discurso político, provocando no público reflexões acerca das questões contemporâneas.

Em Nosso Estado de Sítio esse discurso político está presente do início ao fim do espetáculo. Com o proclamado estado de sítio, imposto na calada da noite, as ações se dividem, por um lado, pela possibilidade de organização e de resistência dos cidadãos e, por outro, pela imposição da necessidade de um povo obediente e transformado em máquinas de rendimentos; um povo que entenda principalmente que o essencial do seu papel na sociedade não é compreender e questionar o sistema opressor, mas executar o que este lhe impõe. 

A contemporaneidade do espetáculo está presente o tempo todo no discurso do opressor. Um opressor cujo discurso político defende a deportação dos indesejáveis. Um opressor que tem horror a esse país onde as pessoas pretendem ser livres. Um opressor que defende a necessidade de tudo ser privatizado, a necessidade de separar os brancos dos pretos, os ricos dos pobres, os que mandam dos que obedecem. Um opressor que defende que quanto mais suprimirem os direitos, melhor será a vida do povo. Que defende a ideia de que ninguém pode ser feliz sem fazer mal aos outros. Um opressor cujos discursos e ações dilaceram as poucas esperanças que sobram de um mundo melhor e mais justo. 

Em Nosso Estado de Sítio, o elenco – formado por Bruno Marques, Charlene Uez, Felipe Vigel, Jocteel Salles, Lucas Peiter, Marcelo Ádams, Paula Silveira, Rafaela Fischer, Rodrigo Waschburger e Savana Flores – está inteiro no palco e demonstra afinidade, tem noção do espaço e domina a marcação das cenas. Percebe-se também um domínio total do texto. Estas e outras qualidades são o resultado de uma harmonia no trabalho do grupo, que prioriza o estudo e o preparo constantes – o que contribui para que a peça tenha fluidez. Não tenho dúvidas de que esse conjunto de atributos é o responsável por ter levado o espetáculo a diversas cidades, amealhando, por onde passou, importantes prêmios e reconhecimentos, como a sua participação, em janeiro de 2019, na mostra a ponte - Cena do Teatro Universitário, promovida pelo Itaú Cultural, em São Paulo, sendo o único espetáculo gaúcho a ser selecionado para o evento. 

Crédito da foto: Giuliano Bueno

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019


Estado de Alerta

Viviane Juguero


O espetáculo teatral Nosso Estado de Sítio, criado com base no texto Estado de Sítio, de Albert Camus, foi apresentado na noite do último sábado (7/12/2019), dentro do FESTE. O trabalho é fruto de disciplina desenvolvida na Faculdade de Teatro da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), ministrada pelo professor Marcelo Ádams, que também assina a direção e atua nesta peça que, como uma realização da UAU (União de Artistas da UERGS), segue sua jornada de apresentações fora da Universidade.

O texto original de Camus estreou em 1948 e tinha o objetivo de questionar a situação política da Espanha de então, que sofria os ecos da Segunda Guerra Mundial, extinguida em 1945, e da Guerra Civil Espanhola, finalizada em 1939, a qual havia polarizado o país em posicionamentos extremistas. Neste sentido, Camus utiliza a expressão “estado de sítio” como uma alusão ao fato de os direitos individuais estarem sendo violados pelo posicionamento autoritário do Estado. Cumpre salientar, no entanto que, legalmente, o “estado de sítio” ocorre quando, devido a uma questão urgente de desorganização social, como uma guerra, por exemplo, os poderes legislativo e judiciário são suspensos, a princípio, por trinta dias, pelo chefe do poder executivo. No caso do Brasil, o presidente, para solicitar essa ação extrema precisa ter a aprovação do Congresso Nacional. 

No enredo da peça de Camus, um governador corrupto comanda um local onde imperam a desigualdade e a subordinação imposta repressivamente. Com a chegada de um cometa, a Peste, personalizada em um personagem masculino (que é assessorada pela personagem feminina Morte), toma o poder já corrompido e amplia a sua atuação autoritária, decidindo, arbitrariamente, quem deve morrer ou viver, além de impor modos de vida e valores que regem uma vida burocratizada. Sobre esse aspecto, Camus cria uma narrativa na qual o amor entre Diego e Vitória é progressivamente dilacerado pela impossibilidade de amar em um ambiente desprovido de afeto.

No que concerne à montagem da UAU, o grupo partiu do texto de Camus devido ao fato de reconhecer no mesmo situações e questionamentos que estão presentes na política brasileira da atualidade. Neste sentido, a equipe artística inseriu, de forma crítica, diversos elementos da realidade contemporânea, como o gesto que reverencia a utilização das armas, propagado pelo atual presidente brasileiro e seus correligionários, além de relacionar sua postura autoritária e violenta à conduta nazista de Hitler. O grupo denuncia ainda a repressão policial sofrida em distintas manifestações da América Latina.

A encenação de Nosso Estado de Sítio inicia com artistas espalhados pelo teatro, vestindo um padronizado macacão azul que os caracteriza como operários da arte. A sonoridade de uma guitarra distorcida pontua um discurso que versa sobre o papel questionador da arte. A utilização da plateia como palco acontece em alguns outros momentos da peça, resultando na percepção de que o público integra esse coro e não está alheio às situações denunciadas no enredo.

A movimentação é muitas vezes coreografada e utiliza de distintos níveis e profundidades, associando a beleza da composição imagética a signos que remetem à subordinação e desumanização dos corpos e relações, tais como a padronização automatizada de alguns movimentos e sons, além de convulsões, corpos que representam pilhas de cadáveres, sombras que amplificam as dimensões do poder e do medo, além de referências sutis a posturas críticas de artistas como Bertolt Brecht, que surge não somente em elementos de ruptura presentes na montagem como na referência ao famoso grito mudo da personagem Mãe Coragem, quando ela se depara com a morte do filho. 

A encenação demarca ainda uma conexão entre o poder impositivo do Estado e da Igreja, posto que a Peste emite suas falas de um púlpito, em tom dogmático sacerdotal e com a voz amplificada por um microfone, o que sublinha o fato de que a sua voz é imposta por meio da força. A relação, além de historicamente respaldada, denuncia que o pensamento dogmático que impera no sistema patriarcal constitui-se por meio de uma base emocional calcada em verdades absolutas e não no pensamento reflexivo que, necessariamente, precisa considerar a complexidade de nossa constituição social. Neste sentido, vale refletir sobre o fato de que os textos são fruto de seu momento histórico, e a obra de Camus apresenta diversos signos que ratificam a cultura machista de sua época, seja pela posição subalterna da mulher, seja pela linguagem utilizada, como, por exemplo, a utilização do termo “Homem”, ao invés de “Humanidade”. Sobre esse aspecto, a montagem do grupo UAU optou por não atualizar o seu discurso sobre esta importante temática do século XXI, discutida, amplamente, em diversos países. De qualquer modo, a questão de gênero não passou sem ser discutida, devido à presença de uma cena que remete ao amor homossexual masculino.

Nosso Estado de Sítio possui muitas camadas de significação, trazendo diversas chaves que fazem refletir sobre o complexo caminho histórico que nos trouxe à situação atual, convidando à reflexão e à ação. Uma das mais potentes significações está na própria montagem, isto é, jovens artistas engajados em uma montagem artística socialmente comprometida. A própria postura do professor, ao se colocar como um colega cúmplice em cena, possibilita a percepção de que a ação crítica solicita a solidariedade e o afeto para que a transformação ocorra em cada camada das estruturas sociais. Este posicionamento está revelado na cena em que as personagens se dão as mãos, em uma corrente que forma o símbolo do infinito, o que alerta sobre a complexidade das bases afetivo-racionais que sustentam esses sistemas e sobre a necessidade de transformá-las desde sua interioridade. 

Crédito da foto: Giuliano Bueno

A passagem de um cometa criativo

Pedro Delgado


Dando continuidade à programação do 4° FESTE, na noite de 7 de dezembro foi a vez de o coletivo União de Artistas da Uergs (UAU) pisar no palco do Teatro Bruno Kiefer para apresentar Nosso Estado de Sítio.  A peça tem direção de Marcelo Ádams e interpretação de Bruno Marques, Charlene Uez, Felipe Vigel, Jocteel Salles, Lucas Peiter, Marcelo Ádams, Paula Silveira, Rafaela Fischer, Rodrigo Waschburger e Savana Flores. 

A dramaturgia, que tem origem na obra O Estado de Sítio, de Albert Camus, se desenvolve a partir de dois eventos consecutivos que alteram as perspectivas de vida de um grupo de pessoas. A passagem de um cometa e o surgimento de uma peste são os fenômenos que inspiraram Camus, em 1948, a escrever sobre uma pequena aldeia de pescadores que presenciou tais fenômenos. O autor francês pretendia, com seu Estado de Sítio, retratar de forma metafórica a turbulência espanhola da primeira metade do século XX. Camus é só o ponto de partida para a criação da dramaturgia coletiva de Nosso Estado de Sítio, criação dos alunos do curso de Teatro: Licenciatura da Uergs (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul). 

A peça de Ádams tem início com um surpreendente arranjo performativo, em que os atores executam uma coreografia ao mesmo tempo que tocam instrumentos musicais e tiram sons percussivos de diversos objetos, como sacolas plásticas, por exemplo.  Os primeiros dos 60 minutos da encenação têm ritmo leve, para em seguida se aprofundarem e constituírem um drama em que se sucedem cenas de certo extravasamento provocadas pela passagem de um cometa. A partir desse fenômeno são encenadas situações polêmicas e difíceis na vida cotidiana de um grupo de operários, cujas vidas são ameaçadas por uma nova peste. 

O UAU vai buscar equivalências nos escritos do autor argelino para colocar em cena a situação política atual do Brasil, de modo que a peste que aflige a população de Camus é posta em cena, metaforicamente, como a ameaça do totalitarismo, a retirada de direitos sociais adquiridos, o recuo nas políticas de direitos humanos e o não reconhecimento da existência de diversidades. Com o objetivo também de construir uma estética diferenciada, o grupo vai ao encontro de outras diretrizes, como o princípio da oralidade e o investimento na pesquisa da fisicalidade atorial, metodologia do trabalho do ator que busca evitar a reprodução das ações realistas, apostando, principalmente, na ocupação do espaço cênico com poucos elementos cenográficos. 

Dessa forma, Marcelo Ádams, que também é responsável pelos ajustes finais da dramaturgia, concebe um espetáculo com princípios bem definidos. Reserva uma área do palco para a execução de parte da trilha, onde se observam uma guitarra e alguns objetos através dos quais o elenco produz sonoridades que ajudam a compor a estética e a dramaturgia das cenas. Para os figurinos, o diretor elegeu macacões azuis utilizados por operários de fábricas que, ao mesmo tempo em que enriquecem e potencializam a temática da peça, também transformam o elenco em operários da arte, o que contribui enormemente para a atmosfera e a concretude sensorial e imagética dos corpos e da dramaturgia da cena. 

A direção de Ádams aposta, prioritariamente, na precisão e na criatividade corporal dos atores, que reinventam seus corpos construindo belas e dinâmicas imagens. A utilização do espaço cênico provoca a sensação de que o elenco se multiplica. Seus corpos estão em estado de devir máquina permanente, esses mesmos corpos também representam uma sociedade operária amedrontada e oprimida, que ora conduz o espectador a estados de indignação, ora, de forma quase paradoxal, devido à sátira feita ao sistema, provoca risos frouxos no espectador e até certo relaxamento dos corpos nas cadeiras. Em diversos momentos os atores expandem o espaço dramático de forma que o público parece fazer parte do grupo de operários. 

Destaco aqui, como exemplo, o momento em que dois personagens se colocam em meio ao público e dali se dirigem a ele como se falassem a uma massa de operários.  O roteiro de Ádams ousa desse modo ampliar a discussão sobre os desmandos da atual situação política brasileira, apresentando situações-limite e discutindo o atual contexto de tais personagens. Com isso, Nosso Estado de Sítio denuncia os preconceitos existentes ao mesmo tempo em que proporciona um espetáculo que assume perspectivas estéticas atravessadas pelo humor, o que, de alguma forma, agrada ao público. 

O espetáculo, de forma geral, é bem concebido e muito bem executado enquanto ocupação espacial, construção imagética e dramaturgia corporal. Entretanto, carece de um pouco mais de atenção na colocação textual da maioria dos atores. Percebe-se um elenco muito bem preparado corporalmente, mas com algumas dificuldades na pronúncia e na interpretação dos textos falados. 

De qualquer modo, levando-se em conta que se trata de um elenco bastante jovem, é certo que Nosso Estado de Sítio é de grande importância para o cenário das produções teatrais gaúchas, sobretudo, pela inteligência criativa, pela expressividade e pela dramaturgia das cenas. Bem como pela importância crítica sobre o atual cenário político brasileiro. Parabéns ao grupo União de Artistas da Uergs e vida longa ao Nosso Estado de Sítio!

Crédito da foto: Giuliano Bueno