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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019


Pelo conjunto de suas qualidades, Teima Filho, Teima que Dá emociona o público

Cristiano Goldschmidt



Na noite do último dia 4 de dezembro, a peça Teima Filho, Teima que Dá, do Grupo de Estudos Teatrais deGravataí, abriu a 4ª edição do Festival Estadual de Teatro do Rio Grande do Sul (FESTE), que acontece no Teatro Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mario Quintana. 

Considero importante registrar que o Grupo de Estudos Teatrais de Gravataí (GET) existe há apenas um ano, o que nos impõe a necessidade de um olhar cuidadoso quanto à análise do espetáculo. No entanto, isso não nos impossibilita de apontar suas qualidades, tampouco as falhas a serem revistas. Teima Filho, Teima que Dá emociona o público pelo conjunto das qualidades da montagem, cuja direção leva a assinatura de Izabel Cristina, também responsável pela dramaturgia, livremente inspirada nas obras Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos. 

Além da acertada e impactante trilha sonora, destaco a riqueza do cenário da artista plástica e cenógrafa Cristina Lenz, que, em diálogo com o texto e com a direção, soube reproduzir o agreste brasileiro sem deixar de contemplar a aridez encontrada em diferentes pontos geográficos deste imenso país. No cenário, folhas secas, cadáveres bovinos, caixas gradeadas que também servem de cela, objetos religiosos – o terço e a santa católica que demonstram a força da fé que está sempre presente; símbolos das religiões de matriz africana –, tudo isso forma um conjunto de elementos que representa a cultura e a vida de um povo que sabe que a morte está sempre à espreita.

Dez jovens atores e atrizes demonstram no palco boa preparação corporal, domínio do texto e do espaço cênico, embora ajustes sejam necessários neste último aspecto. Foram pequenas as lacunas constatadas ao longo de quase uma hora de peça, o que pode ser perfeitamente resolvido com a maior atenção dos atores e com a experiência da diretora. Aliás, enquanto a experiência e o domínio da técnica de alguns se sobressai, as deficiências e as fragilidades de outros também se evidenciam. Talvez a inexperiência ou a falta de uma maior atenção e preparo com a voz (dicção e entonação) tenham dificultado para o espectador, em alguns momentos, a compreensão do texto. São pequenos detalhes que, no meu entendimento, podem ser melhorados. Fazendo esses pequenos ajustes, o grupo pode aperfeiçoar um resultado que já vem dando bastante certo.

Para além dessas questões, percebemos um elenco que se entrega à atuação. Estão todos em sintonia, demonstram sentir-se à vontade no palco. Não há ali amadorismo – no sentido da falta de engajamento, de irresponsabilidade ou de descomprometimento dos atores –, e as pequenas falhas que apontei talvez sejam fruto da crueza de alguns, algo a ser melhorado com o trabalho a ser desenvolvido ao longo do tempo.

Certamente poderia fazer uma análise mais aprofundada sobre a atuação de cada ator ou atriz, mas isso nem sempre é possível – às vezes por falta de tempo e espaço –, ainda mais em uma peça com dez atores e atrizes em cena. Porém, sem querer ser injusto com os demais, gostaria de chamar atenção para a atuação de Eulália Figueiredo (de apenas 15 anos), que demonstra qualidades e habilidades que certamente a conduzirão para novos trabalhos. E aqui me refiro mais especificamente ao poder hipnotizante de sua voz. É um talento que precisa ser reconhecido e incentivado.

Outro ator que chama atenção é Jackson Reis, um ator com enorme potencial a ser desenvolvido. Embora tenha suas limitações (Jackson é deficiente físico), chama atenção sua entrega e habilidade em contorná-las, atuando de igual para igual com seus parceiros de cena do início ao fim da peça. Percebe-se que tanto a diretora quanto os colegas não subestimaram suas qualidades e potencialidades.

Espetáculo questionador, com uma narrativa que nos mostra que a injustiça muitas vezes começa no nascimento, Teima Filho, Teima que Dá não apresenta somente a difícil sina do emigrante: questões contemporâneas como a violência contra a mulher, a homofobia e o racismo também estão em cena. Dores, dificuldades, pobreza, exploração, miséria humana e morte formam um conjunto de questões que fazem com que o espectador saia do teatro refletindo sobre o real sentido da vida. E embora a fé esteja presente, por tudo o que nos é dado a ver, a presença divina parece estar bem distante.

Crédito da foto: Carolina Zogbi

  


A potência dramática dos corpos severinos

Pedro Delgado


   
Livremente inspirada nas obras Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos, o Grupo de Estudos Teatrais (GET) apresentou no Teatro Bruno Kiefer, na noite de 4 de dezembro, a peça Teima Filho, Teima que Dá. A apresentação do grupo de Gravataí fez a abertura do 4° Festival Estadual de Teatro do Rio Grande do Sul (FESTE)

Para representar a saga de um povo que queima, arde e sufoca sob um sol escaldante, cujos pés descalços sangram sobre a terra seca, o elenco de Teima Filho, Teima que Dá, sob a direção de Izabel Cristina, mergulha em uma atmosfera miserável para mostrar sua potencialidade dramatúrgica. Desde o momento em que o público se coloca diante do palco, onde a presença da morte se revela por meio de caveiras de animais mortos e de folhas secas espalhadas pelo chão, entre outros elementos, fica evidente que o que está sendo colocado em cena é uma poética sensível e bem pensada. Essa primeira impressão vai se confirmando à medida que o elenco adentra o espaço cênico. São corpos que se dilaceram e se reconstroem, dando força e vida aos demais signos já postos em cena. Ou seria morte? Já que a vida, nesse caso, é a ameaça da morte iminente.

A expressividade de cada corpo e as imagens construídas com os mesmos são o ponto forte da encenação.  Dez atores e atrizes recriam suas formas, ressignificam seus corpos e deles fazem brotar poesias e uma dramaturgia tão potente que é quase impossível escolher onde fixar o olhar, tantos são os corpos e tantas são as imagens criadas.  Percebem-se corpos em devires bicho, e bicho que viram corpos expressivos. É poesia na veia, bem como possibilidades de encontros com a teatralidade.

Entretanto, no momento em que o elenco introduz diálogos e narrativas, que são, na maioria das vezes, endereçadas diretamente ao público, o espetáculo perde potência e, em alguns momentos, chega a parecer frágil. No entanto, isso não chega a prejudicar o andamento do espetáculo, principalmente porque a forma como o elenco, em vários momentos, entoa o texto em forma de coro é muito bom de ouvir. Essa escolha por diálogos em coro também ajuda a potencializar a dramaturgia e a estética das cenas. 

Quero destacar a grande sacada de introduzir um pequeno boneco no papel de retirante, que aparece logo no início da peça e que volta no final. Ele ajuda, inteligentemente, a resolver questões da narrativa, criando possibilidades simbólicas que enriquecem a estrutura dramática proposta. A cena final, em que o retirante na forma de boneco é sepultado em uma cova rasa, possui grande impacto dramático e reforça a grandiosidade e a capacidade inventiva da dramaturgia teatral. A teatralidade simbólica do boneco morto é potencializada pela bela voz de Eulália Figueiredo, que recebe o auxílio de uma iluminação fria produzida por lanternas que iluminam os rostos dos atores. É um dos grandes momentos da peça. 

Como todo o processo de criação teatral, em que cada espectador faz sua leitura, senti que por vezes a interpretação do elenco, no que se refere à dramatização de partes dos textos, se aproximou do exagero emocional, principalmente porque os textos, por si só, já são dramáticos o suficiente. Também me parece que a utilização frequente de luz azul, que em cena constrói um clima frio, diminui o impacto do calor e da seca. Mas isso não chega a tirar o mérito do importante trabalho desenvolvido pela diretora, pelo elenco e pela equipe técnica do GET. Vida longa a Teima Filho, Teima que Dá

Crédito da foto: Carolina Zogbi