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terça-feira, 10 de dezembro de 2019


Um encenador proibido aos conservadores 

Raquel Guerra


Com direção de Helquer Paez e um elenco engajado, o espetáculo Os Sete Gatinhos, da Cia Retalhos de Teatro (Santa Maria) apresentou na tarde do dia 7 de dezembro, no Teatro Bruno Kiefer, um espetáculo que agradou a plateia e que fez jus à estética proposta pelo texto escrito por Nelson Rodrigues em 1958. A dramaturgia foi muito bem atualizada, e a montagem manteve sua contemporaneidade. Esta sensação é também resultado da direção do espetáculo e do empenho do diretor em manter sua concepção sobre a obra literária.

Estreada em 2015, a encenação de Helquer Paez traz nove atores que apresentam o retrato que Nelson Rodrigues (1912-1980) fez da família brasileira de seu tempo. Diga-se de passagem, uma família conservadora nos costumes, mas liberal na economia. Esse é um dos aspectos que chama a atenção na escolha de Paez pelo dramaturgo pernambucano, credenciado pelos 30 anos de experiência como artista e 25 anos à frente da Retalhes de Teatro.

Pode parecer uma ode ao encenador, pouco comum nos dias de hoje, mas creio que a obra teatral apresentada é resultado de uma boa encenação. Pelos seus anos de estrada, acredito que um artista como Helquer Paez, que circula com sua vasta produção no interior do Estado, concretiza aquilo que o próprio FESTE propaga: o Teatro é vivo e se renova nos festivais do Rio Grande do Sul. E que alegria ver a cena gaúcha pela perspectiva deste trabalho.

A prática viva do fazer teatral supera as escolas de Teatro, as academias, as oficinas, os conservatórios e qualquer espaço institucional que queira validar-se como instância do saber teatral. O Teatro é uma arte viva, e quem não pratica não vive. Nesse sentido, o pesquisador Laédio José Martins, em relato oral  sobre sua experiência na fruição da encenação de Helquer Paez para Os Sete Gatinhos, foi certeiro na análise: “Embora o elenco seja composto em sua maioria de atores jovens, e isso é mais mérito do encenador do que demérito do elenco, a profundidade e complexidade da relação humana que está no jogo proposto pelo dramaturgo não perde sua densidade, e o que vaza, no decorrer da narrativa, é a hipocrisia que cada um de nós transpira…” E a montagem transborda Nelson Rodrigues sobre nós, espectadores.

Logo no início, a primeira impressão é que o realismo de Nelson Rodrigues irá dominar sobre a encenação, trazendo à cena a voz do próprio Nelson, em suas crônicas radiofônicas, e associando-a à imagem do estereótipo do malandro carioca, homem da época. Talvez essas primeiras cenas do Os Sete Gatinhos sejam os momentos em que a encenação parece que irá assumir uma estética piegas, e que iremos ver o mesmo do mesmo. No entanto, em 90 minutos de espetáculo, o público sentado nas poltronas da Bruno Kiefer não perde a atenção e não fica entediado. O clichê rodrigueano parece que irá imperar, mas, apesar do respeito que o diretor demonstra para com a obra literária, parece-me que a encenação é que conquista o público.

Um elemento que chamou minha atenção foram as máscaras. Embora literal no caso das máscaras de gato, o uso das mesmas provoca um estranhamento na cena, que nos faz pensar na animalidade da relação familiar, humana e doentia presente nos vínculos expostos na peça: a irracionalidade e a estruturação de uma psiquê patológica surgem como o primeiro núcleo social dos personagens. A peça mostra que o interior na família tradicional não é exatamente o que prega a tradição…

Em relação à atuação, pareceu-me que o elenco mostra unidade, coerência e harmonia durante toda a encenação. Destaco o trabalho de Júlio Aranda: ele apresenta uma performance cujo trabalho físico/vocal se contrapõe à idade cronológica e à postura física cotidiana do ator. Aranda desenvolve muito bem o personagem do pai, não apenas pelo aspecto externo, mas pela vida interior que o ator assume ao interpretar tal papel.

Criador de longa trajetória, diretor, produtor, educador e ator ativo na cena teatral gaúcha, incentivador de várias gerações de artistas, Helquer Paez merece nosso reconhecimento como uma resistência da arte teatral não apenas em Santa Maria, mas nas diversas cidades em que trabalha e apresenta seus espetáculos. Merece destaque o fato que, por sua companhia, já passaram muitos atores, iluminadores, produtores e outros profissionais de artes cênicas. Com três décadas de profissão, é mais que merecido que um artista desse calibre tenha o reconhecimento da plateia, da crítica e dos organizadores dentro de um evento tão importante como o FESTE.

É preciso que se diga que um trabalho como este, selecionado para o FESTE, possibilita aos grupos do Interior que compartilham dos festivais a comprovação de que eles movimentam a arte teatral mais do que a academia, porque chegam a lugares geográficos e sociais que as escolas de Teatro não alcançam. Nesse sentido, um grupo como a Cia Retalhos de Teatro, que se mantém na ativa há tanto tempo, é mais que merecedor de participar de um festival como o FESTE. É digno de aplauso e de reconhecimento, como ocorreu na sessão pública que pude presenciar durante o belíssimo evento promovido pela Casa de Cultura Mário Quintana.  Vida longa ao FESTE! Vida longa à Cia Retalhos de Teatro! Vida longa ao artista Helquer Paez!

Crédito da foto: Giuliano Bueno

Dois atores quixotescos

Raquel Guerra

 
O coletivo Loucos de Palco, de Santa Rosa, apresentou na tarde de 6 de dezembro, na Sala Carlos Carvalho, o espetáculo Dom Quixote, inspirado na obra de Miguel de Cervantes e com texto adaptado por Rafael Barcellos. Com certeza um desafio para qualquer grupo ou artista de Teatro lançar-se na tarefa de uma montagem que aborda a saga heroica do cavaleiro da triste figura, Dom Quixote de la Mancha. Uma obra de grande volume e tradição literária solicita uma adaptação condizente, o que de modo geral pareceu-se que o grupo conseguiu, optando por um recorte que mais falou dos feitos heroicos do que os mostrou em cena.

A encenação, ao priorizar os diálogos entre os personagens, careceu de uma elaboração lúdica das ações, uma vez que o grupo se propôs a participar na categoria de Teatro Infantil.  Em muitos momentos, os atores falavam e caminhavam pelo palco, ora encarando-se, ora voltados para o público, sem que o corpo assumisse o que estava sendo proposto pela fala. Nesse sentido, faltou mise-en-scène e a adaptação textual proposta deveria incorporar com maior vigor o universo imaginário que está presente na obra de Cervantes.
    
Liberdades à parte, o Loucos de Palco trabalhou bem na caracterização dos personagens, e a simplicidade da cenografia colaborou com a proposta cênica apresentada. No palco estão os atores Jadson Silva (no papel-título) e Anderson Farias (como Sancho Pança). Jadson também responde pela direção e assume grande parte da musicalidade do espetáculo. As músicas de cena contribuem para enriquecer a encenação, principalmente pela entonação com um toque gauchesco assumido pelo personagem protagonista, Dom Quixote. Embora um acompanhamento instrumental ao vivo pudesse qualificar as canções, a proposta opta por um acompanhamento mecânico quando os atores cantam. Isso, no entanto, não prejudica a recepção, pois as músicas são coerentes com a performance e contribuem para estruturar a dramaturgia e as transições de cena.   

Dom Quixote circulou o interior do Estado e recebeu os prêmios de Melhor Ator e Melhor Ator-Coadjuvante, na categoria de Teatro Infantil, no Festival de Itaqui. O trabalho também foi premiado pelo Festival de Gravataí. Por suas participações e premiações nestes festivais, o grupo participou do FESTE e mostrou que o trabalho teatral desenvolvido no interior do Estado possui grande importância para a manutenção e perpetuação do Teatro no Rio Grande do Sul. 

Crédito da foto: Giuliano Bueno

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019


Sonhos que voam com O Pássaro Azul

Raquel Guerra


O Pássaro Azul é uma montagem do Coletivo de Teatro A ta,né? apresentada no dia 5 de dezembro, na Sala Carlos Carvalho, como parte da programação do 4º FESTE. Segundo informações de integrantes do grupo, o espetáculo surgiu a partir de um exercício de leitura dramática do texto homônimo de Maurice Maeterlinck  (1862-1949), realizado para uma disciplina do Curso de Teatro da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), de onde origina-se o grupo. Com menos de um ano de estrada - o trabalho surgiu em abril de 2019 -, O Pássaro Azul já percorreu escolas, feiras do livro, espaços de reabilitação social (como o CRAS) e os Festivais de Uruguaiana e de Rosário do Sul, onde recebeu o prêmio de Melhor Espetáculo.

De acordo com a sinopse de O Pássaro Azul: “A peça conta a jornada de duas crianças, Tiltil e Mitil, em busca do Pássaro Azul, segredo da felicidade de todos os homens. Os personagens percorrem lugares mágicos e fantasiosos e encontram seres de todos os tipos no seu trajeto. A peça, em suma, é uma lição de perseverança, coragem e determinação”.

Todo musicado e dedicado ao público infantil, o trabalho apresenta um universo lúdico e onírico, em que os personagens partem em uma viagem para encontrar o Pássaro Azul, metáfora de tantos sentimentos e do próprio sentido da vida. André Barros, Cláudia Gigante e Letícia Conter revezam os papéis e utilizam da convenção do figurino para indicar seus muitos personagens.

O Pássaro Azul foi escrita por Maeterlinck em 1908, que já recebeu inúmeras adaptações para o Teatro e para o Cinema. Com uma estética simbolista, própria do dramaturgo e de seu período histórico, a cena parece solicitar um universo onírico e repleto de metáforas, que devem estar presentes não apenas no texto e na alusão à história contada, mas na encenação como um todo. Na montagem realizada pelo Coletivo de Teatro A ta, né? percebe-se a ênfase na narração, no diálogo direto com o público e nas músicas tocadas ao vivo. As soluções para transição de cena são repetidas a todo momento, e isso gera uma previsibilidade: a cada narração, sabemos que em seguida virá o ator com o figurino de um novo personagem. Na maior parte das cenas, o excesso de narração e de frontalidade torna o ritmo do espetáculo um tanto arrastado, e a ação e o jogo cênico se perdem. 

Outro problema foram os recursos cômicos armados, como a figura do bobo que fica repetindo a ação sem parar até que outro personagem lhe chame a atenção. Esse recurso, tão comum aos cômicos e clowns, foi utilizado indiscriminadamente na montagem. Talvez fosse interessante visitar outros recursos da comicidade. Vale destacar que o grupo foi prejudicado pela ausência de um público infantil na sessão, para quem, afinal, o espetáculo se direciona. Gostaria muito de assistir a O Pássaro Azul com crianças na plateia, pois acredito que o ritmo do espetáculo e da atuação seriam diferentes. Sabemos o tanto que o público influencia o andamento de um espetáculo.

Um aspecto positivo da montagem foram as canções que, embora com melodia simples e poucos acordes, embalaram o ritmo do espetáculo nos momentos de transição de cena e de mudança do contexto narrativo. Acredito que em um espetáculo infantil este elemento tem um lugar fundamental.

Grande mérito do grupo lançar-se nessa empreitada teatral e percorrer os festivais. Por ser um trabalho recente, acredito que O Pássaro Azul tenha muito caminho pela frente. Um espetáculo que explora os sonhos e a metáfora deve valorizar esse aspecto para a formação de nosso público infantil. Que voe mais vezes esse pássaro azul tão filhote, que voe alto e sonhe muito, tão longe quanto a imaginação permita. 

Crédito da foto: Giuliano Bueno