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domingo, 9 de dezembro de 2018


O Ferreiro e a Morte: adaptação gaúcha traz mulher interpretando Jesus

Cristiano Goldschmidt
 
 
A Cia Cena Viva, de Santa Rosa (RS), trouxe para o 3º Festival Estadual de Teatro do Rio Grande do Sul (FESTE) a comédia O Ferreiro e a Morte, texto de Mercedes Rein e Jorge Curi. A montagem, dirigida por Jadson Silva (que também atua, assina figurino, iluminação, sonoplastia, maquiagem e cenografia), foi apresentada ontem no Teatro Carlos Carvalho da Casa de Cultura Mario Quintana. No elenco, estudantes de diferentes escolas públicas do munícipio do Noroeste gaúcho, alunos das Oficinas de Teatro ministradas por Jadson naquela cidade.

A história gira em torno de Miséria (Jadson Silva), um ferreiro que vive com a irmã Peraltona, ou Pobreza (Vitória Ribas). Amante da liberdade, dos amigos e da bebida, tudo o que Miséria deseja é sossego, mas sua rotina sofre reviravolta após receber a visita de Nosso Senhor Jesus Cristo (Joana Dorfer) e de São Pedro (Lucas Vieira). Sensibilizado com a generosidade de Miséria, que não mede esforços em oferecer-lhes o pouco que tem para comer e beber, Nosso Senhor concede a ele o direito de fazer três pedidos.

Viciado em jogos, Miséria pede que nunca perca um jogo, o que o transforma em um homem rico, vencendo um jogo atrás do outro, amealhando a fortuna dos adversários. A irmã Pobreza, de olho no dinheiro do irmão, convence Miséria a conceder um empréstimo ao Governador (Josafa de Souza) para que este se case com ela. O Governador, por sua vez, fazendo jus à fama dos maus políticos, convence Miséria a repassar-lhe toda a fortuna, prometendo administrar os bens de forma a ajudar os que precisam. Convencido pelo cunhado a abrir mão de tudo, Miséria volta a ficar pobre, sendo alvo do desprezo da irmã, agora rica e avarenta, casada com o Governador e cercada de serviçais.

Outro pedido feito por Miséria à Nosso Senhor é a oportunidade de permanecer vivo por mais trinta minutos para aproveitar os prazeres mundanos quando chegar a sua hora de partir. Vítima de uma facada quando se envolve em uma briga com um advogado (Fernanda Hirt), Miséria se depara com a Morte (Alexia Ribas), que vem lhe buscar. Enganada pelo ferreiro, a Morte é presa no alto de uma escada, ficando impossibilitada de levá-lo consigo e de cumprir sua missão. 

Com a Morte presa na escada, o céu e o inferno deixam de receber os mortos, dando início a uma grande confusão terrena. A aparição de Lillith (Kennedy Batista) diretamente do inferno, acompanhado de duas odaliscas (Gabriela Vogt e Lucia Gasen), traz diversas artimanhas, tentativas de convencer Miséria a libertar a Morte para que essa cumpra com suas obrigações.

A escolha de O Ferreiro e a Morte pelo diretor Jadson Silva foi uma aposta perigosa que acabou dando certo. Formada por um elenco grande, neste caso atores e atrizes iniciantes, com pouca ou nenhuma experiência nos palcos, a montagem cumpre com seu objetivo e proporciona aos espectadores momentos de muito riso, indicando cuidado na direção e harmonia em cena. 

Mesmo com todo esse cuidado, a inexperiência do grupo fica evidente em certas passagens, com alguns exageros e certa insegurança, imaturidade profissional que tende a se dissipar com o estudo e o trabalho contínuos. Pequenos equívocos que não comprometem seu desempenho, e a montagem apresenta um resultado final satisfatório, com atores e atrizes dominando o texto e o espaço cênico. Claro, há erros que precisam ser reparados, como os momentos em que atores ficam uns na frente de outros, comprometendo a harmonia da cena e a visibilidade do público. Talvez o fato de o próprio diretor estar em cena contribua com a dificuldade em identificar esses pequenos erros. 

Adaptada com coreografias, figurinos (homens de bombacha, mulheres de vestido de prenda) e trilha sonora típicos do Movimento Tradicionalista Gaúcho, chama nossa atenção a escolha de uma mulher para interpretar Nosso Senhor Jesus Cristo. Intencional ou não, essa corajosa e acertada escolha do diretor contribui para tornar o espetáculo ainda mais interessante, e a atriz soube dar conta do recado.
Uma figura feminina interpretando Jesus Cristo contribui para as discussões em torno das questões de gênero, presentes em montagens recentes, e, neste caso, nos remete à encenação de O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, protagonizada pela atriz e mulher trans Renata Carvalho, que teve sessões censuradas em algumas cidades do Brasil e tentativa de censura em Porto Alegre.

O Ferreiro e a Morte tem ainda no elenco Eduarda Moura (que se reveza entre as personagens Vizinha, Jogador 2 e Sargento), Rafaela Hennig (intérprete de Dona Jesusa) e Rafaela Alves (Mendigo, Lacaio e Papa Defuntos). Com um elenco grande, o diretor conseguiu contornar as dificuldades e levar ao palco um espetáculo bonito, com o qual o público se identifica e se diverte, e é compreensível que algumas falhas tenham permanecido. A torcida é para que Jadson Silva dê continuidade ao seu trabalho, para que os jovens de Santa Rosa continuem estudando e fazendo teatro, e para que as escolas continuem apoiando iniciativas como essa, contribuindo para a profissionalização do teatro no interior do Estado.  

Crédito da foto: Giuliano Bueno

Jovem elenco enfrenta a antiga fábula

Camilo de Lélis
 

A origem do texto teatral O Ferreiro e a Morte, que os dramaturgos uruguaios Mercedes Rein e Jorge Curi adaptaram para o teatro, está no capítulo XXIII da novela Dom Segundo Sombra, do escritor argentino Ricardo Guiraldes (1886-1927). A lenda de um homem pobre, porém esperto, que chega a enganar a Morte (ou engana o diabo, em outras versões da fábula) é muito antiga, existe em quase todas as nações, desde o oriente até o ocidente. Quando Guiraldes incluiu essa narrativa no seu romance ambientado no Pampa, ela já havia sido utilizada por outros autores latino-americanos, o exemplo mais famoso é o texto À Direita de Deus Pai, do colombiano Enrique Buenaventura. A primeira encenação de O Ferreiro e a Morte no Brasil foi realizada pela companhia Teatral Face & Carretos, de Porto Alegre, em 1982.

O espetáculo da Cia. Cena Viva de Santa Rosa nos apresenta O Ferreiro e a Morte pela ótica de um elenco juvenil, a maioria dos atores tem idades em torno de 12 a 15 anos. Essa situação é, ao mesmo tempo, uma dificuldade e um estímulo. Existe a dificuldade de se ter personagens como São Pedro, Jesus, jogadores, a Morte e o próprio Diabo – todos exigindo a experiência obtida pela vivência - sendo representados por jovens. E existe o estímulo, porque o teatro é uma escola de vida e sensibilidade. Nada melhor que uma fábula, ou mesmo um mito,  para se dar os primeiros passos nessa atividade artística. A Cia. Cena Viva é um coletivo de estudantes, orientados pelo professor de teatro Jadson Silva (ele também está em cena, como o protagonista Miséria Peralta). Nota-se que o grupo está aprendendo a arte com muito entusiasmo e seriedade.

O espetáculo começa com os atores caracterizados como bailarinos de CTG. No caso, a Tradição, representada por eles, seria a verdadeira narradora dessa lenda e, dentre os bailarinos, numa coreografia inicial, surge o velho gaúcho Miséria para reviver a sua estória. Ele conta que  foi o homem que recebeu a visita de Jesus e São Pedro e, por intervenção de um pedido milagroso que fez ao Nosso Senhor, prendeu a Morte em cima de uma árvore (adaptada nessa montagem para uma escada). O gaúcho Miséria, com a Morte sob o seu domínio, não deixava que ninguém mais morresse. Ele relata aos espectadores as consequências que o mundo veio a sofrer, por causa disso.

O elenco está bastante equilibrado, mas há destaques nas interpretações de Jesus (Joana Dorfer), a Morte (Alexia Ribas), São Pedro (Lucas Vieira), O Governador (Josafa de Souza), O jogador Fuleiro (Eduarda Moura) e o Diabo (Kennedy Batista). Também, a experiência do professor Jadson sempre é um exemplo e um reforço em cena para a turma de jovens atores. A alegoria da Morte está muito simpática, com uma bela maquiagem. A personagem cai logo no gosto do público, que chega  a ter pena dela quando a coitada não consegue sair de sua prisão.

A crítica mais pertinente a se fazer é quanto à dicção de alguns integrantes, que falam depressa demais e não conseguem imprimir intenção nas falas. Há práticas apropriadas que fariam a diferença nesse sentido, por exemplo, o exercício de morder um lápis, ou uma rolha, e repetir muitas vezes o mesmo texto alto e devagar. Também, nesse sentido, o jogo de truco está indecifrável, pela rapidez no dizer as falas, que não chegam aos ouvidos do público com clareza, pese o fato de se tratar de um jogo pouco conhecido pelo público em geral.  A dicção é fundamental, mesmo quando a cena exige mais velocidade nas réplicas, como é o caso do jogo do truco.

O público ri bastante, o que mostra que a velha fábula do ferreiro que enganou a Morte continua funcionando. A peça termina no mesmo estilo em que começou. Voltam os bailarinos de CTG e dançam para o agradecimento, quando as personagens recebem os merecidos aplausos. Está de parabéns a cidade de Santa Rosa por apoiar a iniciativa do professor Jadson Silva e por incentivar os jovens para que continuem nessa saudável convivência com as Artes Cênicas. Parabéns!


Crédito da foto: Giuliano Bueno